Como a produção de lixo contribui para o aquecimento global

Por Cristal Muniz

Você já parou para pensar como suas atitudes podem estar ligadas ao aquecimento global? Eu sei que é um pouco assustador pensar nisso, mas é verdade. Tudo que consumimos gera um impacto no ambiente, seja em durante o processo de produção, no uso ou descarte. E acredite: a geração de lixo é uma maneira pela qual contribuímos para o aumento da temperatura média do nosso planeta. Pois é!

No Brasil, grande parte dos resíduos orgânicos (restos de alimentos, por exemplo) acabam no mesmo destino que resíduos recicláveis: em aterros sanitários ou em lixões. Como não existe uma separação entre matéria orgânica e inorgânica, a decomposição dos materiais acontece de forma anaeróbica (sem oxigênio) e gases do efeito estufa (GEE) são emitidos nesse processo. E é o aumento da emissão desses gases na atmosfera a grande causa para o aceleramento do aquecimento global. 

Se a gente pensar que um brasileiro produz em média 1,1 kg de lixo por dia e que a maior parte desses resíduos são orgânicos ou recicláveis, fica fácil imaginar algumas ações que ajudariam esse montante a não ir parar em aterros (onde eles não serão mais reaproveitados), como a compostagem ou  da reciclagem.  

Mas o Lixo Zero, que eu pratico há mais de 6 anos, é uma ideologia que pensa antes disso: a ideia é prevenir antes de precisar buscar uma solução. É por isso que evitar a produção de lixo e fazer pode (e deve!)  ser parte da sua busca por hábitos mais sustentáveis.

A seguir, compartilho algumas dicas de hábitos que você pode começar a repensar aí na sua casa:

Desperdício de alimentos

Existe uma estimativa de que 1/3 de todos os alimentos produzidos no mundo sejam desperdiçados e acabem no lixo antes mesmo de chegarem à nossa mesa. Todo esse resíduo ainda vai ser somado aos restos de alimentos que a gente, de fato, produz dentro de casa. E, hoje, os resíduos orgânicos correspondem à metade de todo o lixo que geramos. 

Em aterros ou lixões, esse lixo orgânico acaba produzindo o gás metano durante o seu processo de decomposição. E o metano é ainda pior para o efeito estufa que o já conhecido CO2: ele é 21 vezes mais poluente. Para você entender o tamanho desse impacto: estima-se que, de 2010 a 2016, de 8 a 10% de toda emissão de gases de efeito estufa foi decorrente do desperdício de alimentos.

Soluções para reduzir desperdício de alimentos em casa: 

1) Planejar suas compras:  Anote num papel tudo o que você tem, dando prioridade para olhar a geladeira e o  congelador antes da despensa. Numa coluna ao lado, anote as receitas que você sabe fazer com essas comidas. Na terceira coluna você vai anotar só o que falta em casa pra fazer o que você planejou. Pronto! Assim você garante que vai comprar só aquilo que precisa, priorizando aquilo o que você já tem em casa.

2) Utilizar mais os alimentos de forma integral: antes de jogar fora, que tal descobrir como usar partes que você costuma descartar, especialmente dos vegetais? Cascas de batatas, abóboras e outras raízes podem render chips gostosos; sementes de abóbora podem ser tostadas e virarem snacks; sementes de melão podem ser batidas no liquidificador e viram um leite super docinho. São várias soluções para usar todas as partes dos vegetais de forma gostosa e que vão reduzir seus resíduos consideravelmente.

3) Fazer compostagem: mesmo com todo esse esforço, a gente ainda produz algum tipo de resíduo, certo? Ao invés de enviar isso para um aterro, você pode transformar tudo em adubo dentro da sua casa mesmo, funciona até se for um apartamento pequeno como o meu! Ter uma composteira pode assustar quem nunca ouviu falar de uma, mas elas são simples, práticas, não dão cheiro nenhum e simulam o processo de decomposição da natureza, resultando em um adubo riquíssimo e com cheiro de terra molhada pras suas plantinhas. E o melhor: sem gerar gás metano. Existem diversos modelos e tipos de compostagem, então é só pesquisar pra descobrir qual faz mais sentido pra sua rotina. 

Lixo plástico

A produção de plástico é um importante fator que contribui para o aquecimento global, em especial porque o plástico é feito a partir de combustíveis fósseis. Como a produção de plástico cresce a cada dia, também crescem as emissões decorrentes da exploração, extração, transporte, refino de petróleo, gás e carvão. Estima-se que, nas taxas de crescimento atuais e projetadas, a produção de plástico em si poderá gerar 53,5 bilhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono até 2050. Somando-se a isso a incineração de resíduos de plástico, esse total se eleva para quase 56 bilhões de toneladas. Isso significa que, se a produção de plástico continuar como se planeja, até 2050 ele seja responsável por 10 a 13% do limite estimado de emissões de carbono restantes para que a Terra permaneça abaixo de 1,5 graus. 

Outro impacto importante é no oceano, porque a poluição plástica pode afetar um ciclo importante de reabsorção de carbono. Hoje, cerca de 1/4 do carbono emitido na atmosfera é absorvido pelo oceano, especialmente pelo fitoplâncton, um organismo que usa o CO2 para fazer fotossíntese. Estudos sugerem que o microplástico pode interferir e reduzir a capacidade de fazer esse processo, o que deixaria na atmosfera ainda mais CO2 em excesso. 

Soluções para reduzir o uso de plástico na rotina

Deixar de usar o plástico descartável: afinal, um material que tem esse potencial de impacto não deveria ser usado para coisas que usamos uma vez e depois descartamos, né? Por isso, substitua descartáveis por versões duráveis. Você pode, por exemplo, trocar os absorventes descartáveis por alguma versão reutilizável deles, como coletor menstrual ou absorventes de pano. Você também pode fazer compras à granel em lojas ou feiras que vendem produtos sem embalagens, levando seus próprios saquinhos de pano ou potinhos de vidro. Pode substituir cosméticos líquidos pelos cosméticos em barra, que não precisam ser embalados em plástico. Neste ponto, o mais importante é repensar hábitos que estamos tão acostumados no dia a dia, buscando soluções zero plástico.

Roupas

Que a indústria da moda é uma das maiores e mais complexas do mundo, eu imagino que você já saiba. A produção de roupas tem várias etapas, mas se a gente olhar só a produção dos tecidos mais usados (algodão e poliéster), já conseguimos perceber o impacto ambiental enorme que essa produção gera. Para o algodão, o maior impacto em relação à pegada individual de carbono é quando já estamos com uma roupa do material em casa, porque lavar, secar e passar geram emissões de GEE. Já o poliéster tem uma emissão de gases importante na etapa de produção, fiação e tecelagem dos fios, já que ele é feito de combustíveis fósseis, assim como o plástico. 

Ah, e tem outra coisa pra gente pôr na conta: o resíduo dessas roupas. Na cidade de São Paulo, o lixo têxtil representa cerca de 5 a 6% do lixo domiciliar comum coletado, resultando em, aproximadamente, 275 a 330 toneladas de panos, tecidos, retalhos e roupas das 5.500 toneladas de lixo enviados diariamente para o aterro na cidade. Somente na região do Brás, são coletadas 45 toneladas de resíduo têxtil por dia, o que equivale a 16 caminhões de tecidos descartados diariamente. 

Soluções para reduzir sua pegada na sua relação com as roupas:

1) Consertar mais: em tempos de roupas cada vez mais "descartáveis" (do ponto de vista de como lidamos com elas), acho importante lembrar que podemos consertar algo antes de simplesmente optar por descartá-la. Hoje, aliás, roupas com aparência "retocada" entrou na  moda: o movimento Visible Mending, que conserta furos, rasgos e outros probleminhas com bordados aparentes. Sim, pra mostrar que a roupa foi consertada e que tem uma história maior por trás. E, claro, para adicionar flores, tramados e cores. Dessa forma, aumenta-se a vida útil das peças, evitando que elas parem no lixo.

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Afinal, você já tem água encanada em seu chuveiro ;)

B.O.B Bars Over Bottles