Sustentabilidade é coisa do passado?

Um papo sobre restauração da natureza com Gabi Yamaguchi, do WWF-Brasil

Nos últimos anos, falar sobre sustentabilidade se tornou algo supercomum. Cada vez mais, criamos consciência em relação ao impacto que nosso estilo de vida gera em nosso entorno, o que vem trazendo mais pessoas, comunidades e empresas pra um movimento de repensar hábitos e formas de consumo. Mas já chegou a hora de irmos além.

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Estamos vivendo um cenário de aumento da temperatura do Planeta. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial, os últimos seis anos foram os mais quentes registrados desde 1880, com um pico de aumento que chegou a 1,2ºC em 2020. Nesse ritmo, podemos atingir +1,5ºC nos próximos quinze anos, o que nos coloca frente a consequências como aumento do nível dos oceanos, secas extremas, perda do habitat natural de animais e escassez de recursos hídricos e acesso à água potável. Assustador, né?

Pra frear essa trajetória de destruição que pode nos levar a condições climáticas extremas, é importante fazer escolhas mais sustentáveis, que não gerem novos danos ao Planeta, mas não só isso: precisamos agir também pela restauração, recuperando ecossistemas que foram destruídos e repensando a maneira como nos relacionamos com a natureza.


E essa pode até parecer uma missão difícil, mas a restauração do meio ambiente pode começar com as escolhas que fazemos no nosso dia a dia, como na hora de comprar um produto ou de pensar sobre como lidamos com os resíduos dentro da nossa casa.

Dá um check no meu papo com a Gabriela Yamaguchi, diretora de engajamento do WWF-Brasil, pra entender mais sobre isso.

O último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) foi publicado em fevereiro de 2022. Em que momento estamos em relação à crise climática hoje?
O último relatório do IPCC, que é esse painel científico que analisa todos os dados sobre como a gente está em relação às mudanças climáticas, mostrou que a gente não está bem, não. Nos últimos 20 anos, a gente não conseguiu reduzir as nossas emissões de gases de efeito estufa. Muito pelo contrário, a gente aumentou. Então, o nosso desafio é gigante. A gente precisa, nos próximos 8 anos, mudar a maneira como a gente se relaciona com a natureza pra manter o aumento da temperatura do Planeta em até 1,5ºC, como diz o Acordo de Paris.

E como deve ser essa nova relação com a natureza?
Existe uma importância muito grande de entender que não é o suficiente só parar de destruir, parar de desmatar. Nós já estamos vivendo há bastante tempo os debates sobre sustentabilidade, vendo o quanto essa pauta se ampliou e muitas pessoas, muitos governos, muitas empresas falam sobre isso. Mas a gente chegou num ponto crucial: precisamos de mais ações concretas. E é essencial darmos um passo além, não só protegermos o que restou, mas também restaurar e recuperar tudo aquilo que a gente destruiu.

É quase como se a gente tivesse que repensar toda a nossa forma de viver, então?
A gente passou décadas dentro de uma sociedade de consumo tentando sempre extrair mais e consumir mais. Esse movimento, agora, é completamente inverso. A nossa evolução enquanto sociedade precisa se conectar a uma outra visão: usar só o necessário. Não tem mais nada que justifique, nem economicamente, nem do ponto de vista tecnológico, nós continuarmos a utilizar combustíveis fósseis, por exemplo, pra produzir embalagens, pra produzir plástico, pra produzir tudo que está ao nosso redor.

E como esse movimento se relaciona com os nossos hábitos no dia a dia?
No dia a dia, a gente faz escolhas. E escolhas mais responsáveis nos ajudam a ter um consumo mais consciente e diminuir os nossos impactos na natureza. Se a gente conseguir se conectar dentro da nossa casa com a redução de desperdício de alimentos, de produtos, das nossas roupas, de tudo o que está no dia a dia, a redução desses impactos individuais vai contribuir pra que a gente tenha menos impactos na natureza. Se a gente deixa de produzir tantos resíduos na nossa casa, são menos resíduos que vão parar no meio ambiente, menos poluição que vai parar dentro de córregos, rios ou dos nossos oceanos.

Você comentou que agirmos pra proteger a natureza já não é mais suficiente e precisamos restaurar ecossistemas que foram destruídos. A ideia de reduzir nossos impactos também se relaciona com isso?
A restauração de ecossistemas é um sistema. E a gente fala muito, hoje, de uma abordagem sistêmica, porque no sistema cada um dos atores, cada uma das pessoas que participa, faz a sua parte. As empresas precisam diminuir a maneira como elas produzem, destruindo a natureza. Os governos precisam ter políticas que consigam incentivar soluções e diminuir os impactos negativos. E nós, no nosso consumo, no nosso dia a dia, por meio das nossas escolhas, fazemos parte desse sistema. Restaurar a natureza não é só um movimento gigante, de milhões de hectares que precisam ser recuperados. Se cada uma das pessoas que pode fazer escolhas mais responsáveis mudar os seus hábitos, a gente vai ter um impacto muito maior em escala. Isso quer dizer que as empresas e os governos não podem fazer sua parte? Muito pelo contrário. Pessoas que fazem escolhas mais responsáveis, por meio de um consumo mais consciente, estão mais atentas também ao que as empresas e os governos estão fazendo. O sistema se complementa.

E pra além da redução de impactos, como a restauração funciona na prática?
Dentro dessa visão sistêmica da restauração, nós olhamos pra tudo o que foi extraído e destruído em uma determinada área degradada e estudamos o que fazia parte da origem da mata nativa desse território. Ou seja, quais eram os recursos naturais presentes ali que permitiam que essa vegetação nativa continuasse vivendo. E então, a gente trabalha pra restaurar essa área, buscando as mesmas vegetações, as mesmas espécies que existiam ali anteriormente. Uma das técnicas que usamos no processo de restauração é justamente a capacidade que a natureza tem de se regenerar. A gente coloca a mão na massa, fazendo trabalho de campo, trabalhando com coleta de sementes no Cerrado, com as bacias hidrográficas na Mata Atlântica, por exemplo, pra estimular essa capacidade regenerativa que a natureza já tem. Isso é restauração. E ela é uma solução de esperança, de mais geração de empregos, de mais projetos que sejam positivos, de mais geração de alimentos saudáveis por meio dos sistemas agroflorestais. A gente só tem notícia boa com a restauração de ecossistemas.

Isso quer dizer que ainda é possível ter esperança e reverter o cenário da crise climática? 
Nós, do Brasil, temos todas as soluções que precisam ser trabalhadas pra conseguirmos enfrentar essa crise climática. O WWF-Brasil é uma ONG que está há 25 anos no país, atuando em projetos em defesa das pessoas e da natureza, olhando pros direitos dos povos tradicionais, dos povos indígenas, das comunidades locais e junto com elas buscando um modelo de desenvolvimento baseado na restauração da nossa conexão com a natureza. Precisamos reaprender com esses povos a importância de respeitarmos e vivermos em harmonia com o meio ambiente. A gente tem esperança, sim - e não existe nenhuma solução sem ser em parceria e no coletivo.

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