Ultraprocessados e a ultra-poluição plástica do Planeta.

Ultraprocessados e a ultra-poluição plástica do Planeta.

Como os mercados expressos nos incentivam a ter uma rotina menos saudável e sustentável.

Já falei muito por aqui sobre como a indústria da beleza colabora pra crescente poluição plástica que afeta o nosso Planeta. Mas tem outra grande fonte que não pode ser ignorada: a dos alimentos ultraprocessados. Com o apelo da praticidade, essas comidas embaladas em camadas e mais camadas plásticas, cheias de corantes e outros ativos químicos nocivos, se tornam cada vez mais populares na vida moderna. Só que além de serem péssimas pro Planeta, elas também não são a melhor coisa pra nossa saúde.

Segue aqui que hoje vou te contar um pouquinho mais sobre essa indústria alimentícia e como os mercados expressos colaboram pra popularização dos ultraprocessados. 

Índice

Como o Brasil contribui pra poluição plástica.

Antes de entendermos mais do papel dos ultraprocessados na poluição plástica, vamos falar do nosso país. De acordo com os dados do Banco Mundial, o Brasil é o 4º maior produtor de lixo plástico do mundo, produzindo 11,3 milhões de toneladas anualmente. De todo esse monte de plástico, só 1,28% é efetivamente reciclado, o que é um número muito pequeno por si só e ainda menor quando comparado a média global de 9% (que mesmo assim não é tão grande). 

Os índices de reciclagem são tão baixos no nosso país (e no mundo também) porque reciclar o plástico não vale a pena financeiramente pra indústria. O plástico é um material extremamente barato na hora de ser produzido, mas na hora da reciclagem, o valor econômico dele aumenta. Isso porque existem muitas variações de plástico que levam diferentes tipos de químicos e corantes. 

corantes alimentícios

E, falando neles, os corantes são um dos grandes impedimentos da reciclagem, algumas cores, como rosa, vermelho e amarelo, são muito difíceis de serem misturadas com as tradicionais que encontramos na maioria das embalagens (verde, cristal e marrom), e isso faz com que elas só possam ser misturadas entre si. Então, uma embalagem de ketchup que é toda vermelha, por exemplo, não pode ser reciclada junto com uma garrafa de água mineral transparente, porque a cor vermelha não vai se diluir ou se misturar com a da transparente. 

Tudo isso faz com que os processos de reciclagem do plástico sejam muito difíceis e custem muito caro pra indústria. Então, por mais que uma embalagem se diga como reciclável, ela muito provavelmente não será reciclada, já que nem o governo, nem as empresas que fazem o uso de todo esse plástico não se responsabilizam pela destinação dessas embalagens.

E dentro de todo esse cenário, temos a indústria alimentícia que é responsável por 42% de todas as embalagens de plástico flexíveis produzidas no nosso país. Além de todos os agravantes da reciclagem citados acima, ainda temos a combinação de plástico + comida que geralmente torna esse material ainda mais impróprio pra reciclagem. Temos um grande rombo na nossa educação sobre o lixo que produzimos e por isso muita gente acaba jogando embalagens no lixo que ainda estão com restos de comida. Essas sobras começam a estragar e uma simples lavada no material não basta pra tirar todos os resíduos, fungos e bactérias pra que ele possa ser reciclado.

Então, se a sua intenção é que seu lixo seja reciclado, separe o seco do orgânico e lave suas embalagens antes de jogar elas fora. Assim, elas têm uma possibilidade um pouco maior de passar pela reciclagem. Isso vale também pra vidros e alumínio, tá? Quanto mais limpas as embalagens chegam nos centros de  reciclagem, mais chances elas têm de serem recicladas. Mas no caso do plástico, o melhor mesmo é reduzir o uso dele na sua rotina.

O que são alimentos ultraprocessados?

De forma resumida, alimentos ultraprocessados são os que passam por várias etapas de processos industriais. Aqui vai um exemplo: um pão francês produzido na padaria não é um alimento ultraprocessado, já um pão de forma embalado e vendido por uma grande empresa geralmente é sim um alimento ultraprocessado. 

Isso acontece porque o pão francês da padaria leva apenas farinha de trigo, fermento biológico, sal, água e açúcar, enquanto um pão de forma de uma grande indústria geralmente leva vários outros aditivos químicos pra acrescentar sabor, aroma e aumentar o seu prazo de validade, entre outros.

pão de forma fatiado

Como eles afetam o Planeta e a nossa saúde.

Além desses químicos, os alimentos ultraprocessados também costumam ter muito mais gordura, sal e açúcar do que os alimentos in natura (frutas, legumes, etc) ou minimamente processados (arroz, feijão, farinha, etc). Então, além de serem embalados em plástico, eles também são péssimos pra nossa saúde. 

Uma pesquisa feita pela Imperial College London, no Reino Unido, descobriu que o consumo constante de alimentos ultraprocessados pode aumentar em 30% a chance de um câncer. Fora esse agravante, outros estudos já confirmaram a relação entre um consumo constante de ultraprocessados e doenças cardíacas, obesidade, diabetes tipo 2 e até depressão.

Um médico e pesquisador chamado Chris Van Tulleken também fez um experimento pra BBC, onde comeu alimentos ultraprocessados ​​por um mês. Além de se sentir mais cansado e com dificuldades pra dormir, o pesquisador também percebeu que comer esse alimentos se tornou quase que um vício. Isso aconteceu porque as áreas do cérebro responsáveis ​​pela recompensa tinham se conectado com as áreas que levam ao comportamento automático. Então, constantemente ele sentia a “necessidade” do alimento ultraprocessado.

E pro Planeta, além de toda poluição plástica, os ultraprocessados ainda emitem mais gases do efeito estufa e desperdiçam mais água na sua produção. Nos últimos 30 anos, o consumo desse tipo de alimento ficou mais popular no Brasil e com isso a alimentação brasileira teve um aumento de 21% nas emissões de gases do efeito estufa e 22% da pegada hídrica, de acordo com uma pesquisa feita pela USP em parceria com as universidades britânicas de Manchester e Sheffield.

Leia mais: Recursos hídricos x mudanças climáticas: qual a relação?

Por que mercados expressos são parte do problema?

Agora que você já entendeu os problemas dos alimentos ultraprocessados pra gente e pro Planeta, tá na hora de saber um pouco mais sobre como os mercados expressos se encaixam nessa história. De forma geral, os mercados expressos se especializam em vender produtos ultraprocessados, são raros os que possuem alimentos in natura e quando vendem, geralmente são escassos e limitados a produtos básicos como cebola ou banana. 

Esse tipo de mercado também se coloca em regiões das grandes cidades que chamamos de desertos alimentares, isso é: onde o acesso a comidas naturais ou pouco processadas é difícil. Além de serem locais com grande fluxo de pessoas e transportes públicos, como os centros das cidades e próximos a universidades. Dessa forma, esses mercados se tornam as únicas opções de alimentação rápida e prática pra quem está de passagem em meio a uma rotina corrida.

“Ah, mas perto desses lugares geralmente também tem ambulantes ou pequenos mercadinhos que vendem salgados, cachorros-quente, sanduíches…” sim, mas esse tipo de comércio também fica em risco com a chegada desses mercados expressos. No México, por exemplo, a cada mercado expresso inaugurado, 5 vendinhas de bairro fecham. E a previsão é que esse comportamento também se repita em outros lugares. Afinal, passar e pegar um salgadinho de R$ 5 de forma rápida é muito mais prático e barato do que pagar de R$ 10 a R$ 20 em um lanche e esperar ainda todo o preparo dele pelo comerciante, como no caso dos cachorros-quentes. 

cachorro quente artesanal

Isso tudo nos mostra como constantemente a indústria dita como iremos viver, ela escolhe o que será embalado em papel, alumínio, vidro ou plástico, escolhe a que tipo de comida e bebida teremos acesso, escolhe o que se encaixa ou não na nossa rotina.

Tá na hora de tomarmos as nossas próprias decisões!

As mudanças de hábitos precisam acontecer hoje.

Consumir de forma mais consciente não é apenas sobre reduzir as compras em lojas de departamento, é pensar mais além e realmente analisar os impactos da sua rotina no Planeta. Ter uma alimentação mais natural reduz suas pegadas de carbono e hídrica e seu descarte de plástico, além de poder melhorar a sua saúde. 

Claro, nada precisa ser radical, é tudo sobre escolhas que se encaixam na sua vida. Se você pode levar um sanduíche na bolsa ou uma fruta ao invés de comprar um salgadinho no mercado próximo a faculdade, faça! É sobre fazer o possível e não se cobrar do perfeito. Quando exigimos a perfeição sempre, é muito possível que a gente abandone o novo hábito porque ele se torna insustentável, por isso que sempre falo aqui sobre a sustentabilidade possível. 

Leia também: O que é consumo consciente?

Ficou tão chocada quanto eu com todas essas infos? Me conta aqui nos comentários e nos vemos no próximo post. 

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